O trem e a saudade de Minas – Miguel Dias Filho – Professor de Português

Miguel

O trem e a saudade de Minas 

                Todos os que deixam sua terra natal carregam no peito uma saudade.  Com o mineiro não é diferente.  Entretanto, a saudade do mineiro é bem abrangente, passa pelos cinco sentidos.  Vai desde a saudade do sabor, de um pão de queijo, por exemplo, à saudade dos sons de Minas, podemos citar o som de uma viola ou o de uma prosa amiga.

                Da saudade também não fica fora o olfato, aquele cheiro de um cafezinho coado nas manhãs frias que nascem entre as montanhas, nem tampouco esquecemos o visual… ah, a visão guarda muita saudade.  As imagens de Minas povoam a memória de todo mineiro ausente.  Ainda há aqueles mais idosos que cultivam uma saudade composta por todos os sentidos.  Meu avô, embora nunca tenha saído de Minas, suspirava com carinho uma saudade especial: saudade de ouvir o apito do trem, os viajantes correndo pela plataforma para buscar, com a vista atenta, a Maria Fumaça apontando na curva. Lá vinha ela garbosa, sacudindo, com seu característico cheiro de um “trem” queimado, entoando uma canção própria, parecendo sugerir: café-com-pão, bolacha não; café-com-pão, bolacha não…  Hoje, ainda é possível conhecer ou recordar essas sensações no embalo de alguns passeios turísticos, como por exemplo, entre São João Del Rei e Tiradentes, entre Ouro Preto e Mariana.

                De Minas vêm ainda muitos trens.  Para mineiro, a vida é um “trem bão”… mulher também é “um trem bão demais, sô”.  Tudo se resume a trem. Uma refeição pode ser trem: “Tô com vontade de comer um trem”.  Um cisco também pode ser trem: “Caiu um trem no meu olho”. 

                É por isso que uma manchete de jornal como esta, em Minas, não emociona ninguém:  “Trens batem de frente em Minas”.

            Os mineiros obviamente não dão a devida importância a essa notícia, já que pra nós isto quer dizer apenas que duas coisas bateram. Podem ser dois carros, um carro e uma moto, uma carroça e um carro de boi; ou até mesmo um choque entre uma mala de viagem e a mesa de jantar…

            Movido pela curiosidade, resolvi então consultar o Aurélio e vejam o que diz:

            Trem: sm. 1. Objetos que formam a bagagem dum viajante. 2. Mobiliário duma casa. 3. Bras. Comboio ferroviário. 4. Bateria de cozinha. 5. Bras. Pop. Treco. 6. Diz de pessoa ou coisa ruim, imprestável. (Bras. : é a abreviatura de Brasileirismo)

            Vejam que o sentido de comboio ferroviário é apenas o um dos significados, e ainda é considerado um brasileirismo. Comentei o fato com um professor especialista em etimologia que esclareceu a questão: o comboio ferroviário recebeu o nome de trem, justamente porque trazia, porque transportava os trens (objetos, trecos) das pessoas. Vale lembrar que, muitos anos atrás, o Brasil possuía uma malha ferroviária com relativa capilaridade e o transporte ferroviário era o mais importante, assim era natural que as pessoas fizessem esta associação.

            Moral da história: O mineiro é antes de tudo um erudito. Além de erudito, ainda é humilde e aceita que o pessoal dos outros estados tripudie da forma como usa a palavra trem. Na verdade, acho que isto faz parte do espírito cristão do mineiro, ele escuta as gozações e pensa:

                “Que trem, sô!… mas que sejam perdoados, pois não sabem o que dizem”.

Categoria: Miguel Dias Filho - Professor.

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